O escritor e admirador de pássaros americano Jonathan Franzen, de 52 anos, é uma das grandes atrações da décima edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa na quarta-feira (4). Ele conversou nesta semana com ÉPOCA de seu apartamento em Uptown, em Nova York. Falou de pássaros e de seus hábitos de consumo cultural. Diz, por exemplo, que não gosta mais de ir ao cinema. Abaixo, trechos da conversa.
edição da Flip (Foto: Getty Images)
ÉPOCA – Seu romance Liberdade foi celebrado em 2010 como herdeiro da tradição moderna, foi chamado de o “grande romance americano”, um exemplo do romance social. É isso mesmo, ou os críticos exageram?
Jonathan Franzen – Meus dois últimos romances, As correções e Liberdade, abordam questões de família. Em Liberdade, somente o primeiro capítulo discorre sobre os assuntos do momento, a decadência da América etc. São dois ou três temas políticos que chamaram a atenção dos resenhistas. Mas não posso chamar o que fiz de “grande romance” nem mesmo “romance social”. São tentativas.
ÉPOCA – O senhor diz que o escritor precisa viajar, conhecer o mundo e viver intensamente o que escreve, e se transformar no final de um livro. Não é um programa romântico em um mundo em que os autores se acomodaram diante do computador?
Franzen – Eu me considero romântico no sentido modernista do termo. O Modernismo fez a reciclagem do Romantismo, colocando o sujeito no centro da criação literária, bem como a busca de novas formas de linguagem e narrativa. Nesse sentido, sou romântico e modernista. Eu me identifico com a obra de Novalis [poeta alemão], mas principalmente com as de Marcel Proust, Joseph Conrad e William Faulkner. Todos escritores que correram riscos e dedicaram suas vidas à escrita.
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ÉPOCA – No seu anseio em ser legível, as histórias de Faulkner não são fragmentárias demais?
Franzen – Pois é, eu busco uma forma mais clássica e linear de contar histórias do que a de Faulkner. Sou uma pessoa convencional, e talvez por isso eu queira narrar minhas histórias de modo direto e sem ornamentos ou armadilhas. Faulkner experimenta com a linguagem e com os blocos narrativos. Meu romance favorito de Faulkner é justamente o fragmentário Absalão, Absalão! Só que basta penetrar no emaranhado narrativo do livro para sentir a clareza e a força de Faulkner. Dele eu recomendo também a leitura de Santuário e A aldeia, romances em que Faulkner se esforça por não ser difícil. E, de fato, são textos que prendem do começo ao fim.
ÉPOCA – É quase impossível para um romancista não ser chato. Há passagens difíceis em Conrad e Proust...
Franzen – É verdade. Páginas e páginas insuportáveis, mesmo em uma obra maravilhosa comoEm busca do tempo perdido, de Proust. Conrad também é enrolado, mas dificilmente você encontra romance mais divertido que Nostromo. Autores como Proust e Conrad forçaram os limites da palavra em suas obras, e apontaram para novas possibilidades de narrar uma história.
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ÉPOCA – Há duas citações interessantes nos seus dois últimos romances. Em As correções, o senhor cita a série Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis. Em Liberdade, é a vez de citar Guerra e Paz, de Liev Tolstói. Qual o motivo para isso? É uma relação intertextual?
Franzen – Eu citei Nárnia por dois motivos. Em primeiro lugar, porque adoro a premissa da história: um guarda-roupa no fundo de uma casa que abre as portas para um outro mundo. Ora, essa deveria ser a razão de existir de todas as histórias infantis, levar as crianças para um universo desconhecido. E aqui entra o segundo motivo: um dos heróis do livro, o menino Edmundo Pevensie, é o que deveriam ser os heróis de histórias infantis: ele não é comportado, e às vezes age com egoísmo, como um menino de verdade. Os livros infantis são tristemente dominados pelo maniqueísmo Bem e Mal. Nárnia prova que é possível fazer uma história bonita sem disfarçar a realidade. Bom, quanto a Guerra e Paz, coloquei a citação na boca de Patty [protagonista do romance] porque, enquanto escrevia Liberdade, me dei conta de que eu estava simplesmente roubando a trama central de Guerra e Paz de Tolstói. Foi um roubo inconsciente do qual tentei me redimir, citando a fonte.
ÉPOCA – O senhor conhece os brasileiros autores do passado?
Franzen – Tenho apreço por Clarice Lispector. Machado de Assis é genial, ainda que afetado pelo ambiente literário europeu. Um autor para o qual não me considero preparado é Jorge Amado. Os romances dele têm um realismo social que me lembra os panoramas engajados de John Steinbeck, em As vinhas da ira. Tanto Amado como Steinbeck têm um tom autoindulgente em algumas obras. Steinbeck não sustenta esse tom em boa parte de sua produção. É um escritor muito rico. Quanto a Jorge Amado, ainda quero ler mais obras dele para formar uma opinião.