Após crise no PSD, Kátia Abreu é assediada pelo PMDB
Senadora ainda se mostra reticente sobre saída do PSD depois de criticar Kassab e rasga elogios à presidente Dilma: “Ela tem prazer em governar”
Carolina Freitas
A senadora Kátia Abreu, do PSD: elogios a Dilma após se desentender com Kassab (Sebastião Moreira/EFE)
"Primeiro foi aquela coisa de não é direita, esquerda nem centro, depois coliga com qualquer um e agora vai lá e faz intervenção em Minas. Querem fazer o que desse partido?", senadora Kátia Abreu
Depois de se insurgir contra a cúpula de seu partido, o PSD, a senadora Kátia Abreu (TO) vem sendo cortejada pelo PMDB. Ela confirmou ao site de VEJA que o vice-presidente da República, Michel Temer, oficializou, na quarta-feira da semana passada, o convite para que ela mude de partido. Os dois marcaram de conversar assim que Temer voltar de uma missão oficial a Moçambique, no final desta semana. Ao menos sete senadores peemedebistas, entre eles Renan Calheiros (AL), Valdir Raupp (RO) e Romero Jucá (RR), telefonaram desde então para Kátia para dizer que ela é bem-vinda na bancada.
“Todo político sabe que mudar de partido é um trauma, é horrível, é muito ruim. Eles sabem que nessa hora têm de receber muita cortesia, muito amparo, muito acalento. Eu, mesmo com todo o clima no DEM, sofri muito ao sair de lá”, disse Kátia. No ano passado, ela deixou o DEM para criar o PSD ao lado do prefeito Gilberto Kassab. Agora, os dois políticos protagonizam a primeira crise do partido, por causa de uma intervenção de Kassab, presidente do PSD, no diretório municipal da legenda em Belo Horizonte. Com a ação de Kassab, o PSD passou a apoiar a candidatura do petista Patrus Ananias.
Apesar do assédio do PMDB, a senadora se mostrou reticente sobre sua saída do partido que ajudou a criar e prefere falar em uma reconstrução. “Eu quero é uma vida nova para o PSD daqui para frente”, afirmou. “Primeiro começou com aquela coisa de não é direita, nem esquerda nem centro, depois coliga com qualquer um e agora vai lá e faz intervenção em Minas. Querem fazer o que desse partido?”
A senadora diz que terá cautela ao tomar qualquer decisão. “Eu não quero uma revanche, nem liderar um movimento de retirada. Mas se o partido continuar apenas um apêndice da política de São Paulo e da carreira de Kassab eu não fico não.” Kátia argumenta que a decisão de fazer uma intervenção cabe à executiva nacional do partido e não ao presidente, sozinho. Como um recuo de Kassab agora é improvável, a única forma de reverter o apoio a Patrus é se a Justiça Eleitoral impugnar a coligação, conforme pedido por um grupo do partido na semana passada.
A ameaça de Kátia ainda não reverbera no comando do PSD. Os insistentes telefonemas - e um longo SMS - dela para Kassab ficaram sem retorno. E ela diz que agora parou de insistir. Publicamente, o prefeito tem dito que “o tempo dirá quem tem razão”. Nos bastidores, Kassab trata a fala da senadora como um blefe, por isso ele não a chamou para conversar – nem deve fazê-lo nessa semana. “Vamos deixar a poeira baixar”, diz um interlocutor do prefeito.
Admiração e ministério - Durante a formação do PSD, Kátia Abreu pleiteou a presidência do partido, mas foi preterida por Gilberto Kassab. “Ele não me disse nada, montou a Executiva todinha sem conversa com ninguém. Eu só soube que eu era vice depois que já estava decidido”, disse a senadora. “Eu não me incomodaria de ser comandada por Kassab, se ele estivesse exercendo bem a presidência, mas ele é individualista, personalista e não confia nas pessoas.”
Ainda assim, o novo partido abriu portas para Kátia Abreu, que conseguiu uma aproximação com a presidente Dilma Rousseff. O esforço da senadora - e presidente da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) - é tornar-se uma conselheira da presidente para assuntos de logística e agricultura. “Nossa relação é muito cortês e afável”, diz. “O que você falar com Dilma tem ressonância, ela dá atenção, leva o assunto adiante, tem prazer em governar. Você sente entusiasmo de discutir as coisas com ela. Eu estou muito feliz com nosso relacionamento, porque há reciprocidade.”
E se tamanha proximidade resultasse em um convite para assumir um ministério? Kátia Abreu esquiva-se da pergunta: “Ah, não, não tem necessidade. Posso ajudar no governo dela de onde eu estou. Não tem necessidade nenhuma de eu estar no ministério para ajudar.”