quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A pane, a pena e o pano


 

Pane quer dizer, segundo o Houaiss, “falha no funcionamento do motor de automóvel, avião etc., que geralmente provoca uma parada”. Sem esquecer, claro, seu uso figurado informal como “esquecimento momentâneo; branco, claro”. A definição do dicionário deixa de fora outra acepção de largo emprego: travamento de um sistema em que as engrenagens e correias de transmissão sejam metafóricas e não literais, como no caso das panes que volta e meia acometem o tráfego aéreo brasileiro.

A origem da palavra, porém, não tem nada a ver com motor. Pane é um substantivo feminino que o português começou a usar no século 20, segundo o etimologista Antonio Geraldo da Cunha, depois de importá-lo de uma expressão francesa do vocabulário náutico. Panne era a princípio o nome da verga (peça transversal) mais longa do mastro de um navio, da qual pendia a vela e que se afinava nas extremidades como uma pena. É justamente do latim pinna, “pluma”, que deriva a palavra, de acordo com o Trésor de la Langue Française.

Até aí, uma coisa não parece ter nada a ver com a outra. O sentido de parada surgiu em francês na virada entre dos século 16 e 17, inicialmente na forma da expressão mettre em pane, “por em pane”, que significava dispor essa verga – e, com ela, as velas – de tal forma que o movimento da embarcação cessasse.

Depois disso, em contraste com tal sentido estático, a palavra não se deteve mais em sua expansão. Há registro da expressão en panne usada em 1759 com o sentido militar de “impossibilitado de agir, de mãos atadas”. Em 1879, qualquer “interrupção no funcionamento de um mecanismo” podia ser nomeada assim. E em 1903 panne designava a “parada acidental de um veículo automobilístico ou uma bicicleta”. Foi com essa roupagem que a importamos.

Uma curiosidade adicional é o contraste entre a expressão náutica francesa e a nossa “a todo pano”, que tem o sentido literal oposto de “com as velas enfunadas”, isto é, “a toda velocidade”. Esse desencontro se dá porque, embora as duas palavras soem parecidas estejam no mesmo campo semântico de velas e mastros, não têm nenhum parentesco etimológico. Se a pannefrancesa é filha de um termo latino que quer dizer pena, nosso pano derivou de pannus e é, nesse caso, um simples sinônimo de vela.