“Viva o povo brasileiro”, obra-prima de João Ubaldo Ribeiro publicada em 1984, venceu a eleição que promovi em 2007 aqui noTodoprosa, perguntando a 50 escritores, críticos e editores qual era o mais importante título da ficção brasileira nos últimos 25 anos. Na época, apresentei esse romanção de 674 páginas como “épico mítico e irreverente da nacionalidade, com seu painel histórico abrangendo quatro séculos”, e não vejo motivo para alterar nenhuma palavra da sumária descrição. Naturalmente, uma obra tão vasta não transcorre num único registro, mas talvez não haja passagem que condense tão bem seu efeito geral quanto a famosa cena de uma batalha da Guerra do Paraguai, ocorrida no dia 24 de maio de 1866, da qual reproduzo o trecho abaixo.
Os brasileiros – entre eles muitos baianos, e notadamente os filhos da ilha de Itaparica – estão levando a pior naquela terra “onde não há orixás, mas outras entidades, monstros de cabeça de boi e corpo de serpente com rabo de navalha”. Morrendo aos magotes, despertam a piedade dos orixás a que foram consagrados. Um a um, vão entrando na guerra Oxóssi, Xangô e Iansã. Ogum, porém, aquele que seria mais valioso, guerreiro invencível, se recusa a ajudar. Seu orgulho está ferido, sente-se negligenciado por seus filhos: “Que animais mataram para mim antes da grande batalha?”, pergunta. Como Aquiles na “Ilíada”, que cruza os braços, amuado, enquanto os troianos levam vantagem sobre os gregos, o vaidoso Ogum nega fogo até perto do fim. Quando finalmente muda de ideia – enganado por uma artimanha de Exu – decide a parada.
A passagem completa é empolgante e bela, como acredito que o excerto abaixo demonstre. E consegue conciliar de forma assombrosa dois elementos que tinham tudo para ser inconciliáveis: uma paródia homérica escancarada e um tom verdadeiramente heroico, em que qualquer fumaça de patriotismo ingênuo é soprada para longe pela brisa que emana dos pequenos torrões natais pelos quais os soldados no fundo lutam, e que ninguém seria louco de negar que merecem luta: aquele “onde os mimos-do-céu florescem e cantam mais os passarinhos”, um outro “onde os mariscos são fartos e as tardes frescas”.
Ogum desceu sobre o campo de batalha como um vendaval, nada deixando à sua frente, pois que ignora qualquer barreira e é conhecido como o que vai primeiro. Na sua frente, sobre um morrote verde, um grupo de soldados combatia em torno do estandarte da Segunda Companhia de Zuavos dos Voluntários da Pátria, da ilha de Itaparica, estandarte mantido no ar pelo Sargendo Matias Melo Bonfim, feito de Ogum desde os sete anos, um de seus filhos mais valorosos. Vinha de Amoreiras, onde florescem os mimos-do-céu e os passarinhos cantam mais. Deixara seus dois filhinhos, Matilde e Baltazar, sua mulher Maricota e sua roça de milho e feijão, deixara sua mãe viúva e sua criação, prometendo voltar assim que ganhasse a guerra. Beijara a filhinha Matilde e o filhinho Baltazar na beira do atracadouro, antes de embarcar com seu vistoso uniforme para lutar pelo Brasil, abraçara sua mulher Maricota e sua mãe viúva e partira com o mesmo sorriso orgulhoso que estampava agora, portando o estandarte intocável da companhia insulana, que flutuava na brisa acima da batalha. Alegre por ser seu filho, Ogum se preparou para animá-lo e dar-lhe conforto, mas o chumbo fervente de uma bala inimiga mordeu o pescoço tenro do rapaz de Amoreiras, apagou seu sorriso e lhe toldou os olhos com o véu pardo da Morte, a qual lhe aspirou a alma pela boca, boca que nunca mais beijaria Matilde e Baltazar, nem nunca mais falaria para contar das belezas de Amoreiras, onde os mimos-do-céu florescem e cantam mais os passarinhos.
Ogum soltou um grito superior à canhonada e suas lágrimas quentes, de dor pelo filho morto, regaram o chão, tornando mais fumegante o sangue dos caídos. O estandarte oscilou, foi para um lado, foi para o outro, até que seu mastro tombou e ele se perdeu entre as cabeças dos combatentes. Como um cardume de atuns desbaratando uma manta de tainhas, como onças acossando a presa, como um enxame de abelhas enfurecidas, como matilhas de guarás despedaçando uns aos outros, paraguaios e itaparicanos se atiraram à luta pela posse do estandarte. Os Cabos Benevides e Arimatéa, brandindo as carabinas como cacetes, fizeram uma parede em torno do estandarte, para que seu companheiro Cabo Líbio o levantasse outra vez. Mas Cabo Líbio, ao erguer-se, teve a cabeça fendida pela cutilada de um sabre e caiu morrendo, a lembrança de sua linda Gamboa, terra onde os mariscos são fartos e as tardes frescas, esvoaçando ao ar de seus miolos partidos. Uma mão paraguaia apoderou-se do hastil, uma lançada no peito derrubou o Cabo Benevides e já o inimigo se preparava para amarfanhar o pavilhão intocável, quando Ogum, senhor das batalhas, mestre das armas, cujo nome é a própria guerra, disparou do alto e arrebatou a bandeira num puxavão que por um momento fez com que ela tremulasse entre as nuvens. Disse então o grande Ogum, ao Cabo Arimatéa:
– José de Arimatéa, mantém firme o estandarte intocável de tua terra, que agora te passo às mãos! Quem te fala é teu pai Ogum, senhor das batalhas, invencível no combate, cujo nome é a própria guerra! Não esqueci os meus filhos e estou aqui para não deixar que pereçam nas mãos do cruel inimigo. É imensa a minha dor, porque demorei a chegar e não pude evitar que matassem um de meus filhos mais valorosos, Matias Melo Bonfim, galardão de Amoreiras, onde florescem os mimos-do-céu e os passarinhos cantam mais. E pela mesma razão é também desmedida a minha fúria, que agora farei desabar sobre o inimigo. Estou a teu lado, vencerás! Ogum-ê!
E logo, como um redemoinho, como um catavento de aço, como vinte mil facões esfarinhando o ar, o grande Ogum, invencível no combate, cercou seu filho Cabo Arimatéa, enquanto ele suspendia bem alto o pavilhão, imune às balas e estocadas do inimigo.