quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Santos opera câncer às vésperas de negociação com Farc


Presidente tornou pública sua doença na 2ª - momento crucial de seu mandato


O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos (Guillermo Legaria/AFP)

Após dois anos na presidência da Colômbia e a menos de duas semanas do início do processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Juan Manuel Santos se afastará por alguns dias de seus compromissos oficiais devido a um câncer de próstata que operou nesta quarta-feira. De acordo com a equipe médica responsável pelo procedimento, a cirurgia foi um sucesso e transcorreu dentro do esperado.

O economista, administrador de empresas e jornalista, conhecido por seus dotes políticos e diplomáticos, tornou pública sua doença na segunda-feira, por meio de uma mensagem a seus compatriotas que surpreendeu a todos. "Encontramos o que já esperávamos, de acordo com as imagens e os exames prévios", confirmou o urologista Felipe Gómez, em suas primeiras declarações aos jornalistas após a intervenção cirúrgica. Segundo afirmou mais cedo o médico de Santos, ele só permanecerá três dias no hospital.

Negociações - O problema de saúde do presidente chega em um momento crucial, diante da proximidade da instalação em Oslo da mesa de negociação com a guerrilha das Farc, no próximo dia 15 de outubro. Nascido em Bogotá, em 10 de agosto de 1951, Santos luta contra o terrorismo desde que chegou à presidência, no dia 7 de agosto de 2010, quando afirmou em seu discurso de posse que tinha "a chave da paz" e que a usaria quando houvesse condições.

Embora desde então não tenha cessado o combate às Farc, com contundentes golpes à sua cúpula, iniciou conversas secretas com a guerrilha e há um mês anunciou que tinha conseguido um acordo em Havana para acabar com o conflito que assola a Colômbia há quase 50 anos. Nestes dois anos, Santos também restabeleceu as relações com Equador e Venezuela, estremecidas durante o governo de Álvaro Uribe (2002-2010), no qual foi ministro da Defesa. O paradoxo é que Santos pode ser o artífice de um processo de paz com reflexos de triunfo apesar de ter estado à frente dos golpes mais fortes contra a guerrilha.

Histórico - Em 2008, quando era titular da Defesa, as Forças Armadas mataram o então segundo homem forte das Farc, conhecido como "Raúl Reyes". Como presidente, Santos anunciou a morte do chefe militar do grupo rebelde, "Mono Jojoy", em 2010; e um ano depois do líder guerrilheiro, "Alfonso Cano", que havia sucedido o fundador, "Tirofijo", após sua morte por causas naturais. O presidente se movimentou dentro e fora do país com tato e diplomacia, e obteve resultados concretos, o que o levou a ser considerado um estadista conciliador e aplaudido pela comunidade internacional.

Contra toda previsão, congelou um convênio militar com os Estados Unidos pelo qual o governo anterior pretendeu pôr à disposição desse país sete bases militares. O presidente demonstrou ser um grande conhecedor dos segredos políticos internos: governa sob a tutela de uma união nacional no Congresso e quase sem oposição, além da exercida por Uribe, seu antigo mentor que hoje lhe critica por negociar com as Farc e por recompor as relações com a Venezuela.

Entre suas iniciativas está a Lei de Vítimas e Restituição de Terras, que assinou junto com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon e com a qual pretende devolver 3,5 milhões de hectares de terras a camponeses que foram despejados por grupos armados. Também levou adiante o Marco Jurídico para a Paz, base legal para negociar com os grupos armados.

Biografia - Santos, que vê crescer a economia colombiana em plena crise mundial, começou sua carreira política em 1972 em Londres, como representante perante a Organização Internacional do Café. Foi ainda subdiretor do jornal El Tiempo, então propriedade de sua família; e em 1991 foi designado pelo presidente César Gaviria como ministro do Comércio Exterior. Durante o governo de Andrés Pastrana (1998-2002) exerceu como ministro da Fazenda e teve que conviver com uma grave crise econômica.

Em 2004 se afastou do liberalismo para respaldar Uribe e criar o Partido de la U, a força que ganhou as eleições em 2006 e 2010. De seus anos na Marinha, como cadete, guarda o costume de praticar esporte diariamente e é aficionado por pôquer e por grandes apostas. Mas, antes de tudo, é um viciado no poder, com o qual convive desde criança, já que seu tio-avô foi presidente.

Casado com María Clemencia Rodríguez e pai de três filhos, Santos é doutor em Leis; estudou Economia e Administração de Empresas na Universidade do Kansas, Desenvolvimento Econômico e Administração Pública na Escola de Economia de Londres e em Harvard. Recebeu bolsas de estudo das fundações Fulbright e Newmann, o que lhe permitiu estudar Jornalismo, e é autor de vários livros, entre eles um sobre a terceira via, que escreveu junto com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

(Com agência EFE)