Para a grande maioria dos egípcios, a derrubada do ditador Hosni Mubarak abriu grandes possibilidades para a construção de uma nova ordem social, mais adequada às demandas de grupos sociais politicamente marginalizados. Ao mesmo tempo, não são poucos os que acreditam que a janela aberta pela queda do presidente parece estar indo no caminho oposto àquele que muitos dos mais árduos revolucionários acreditavam.
Em meio a debates em torno da proibição do direito das mulheres pedirem divórcio, de proibi-las de sair de casa desacompanhadas de um homem ou da legalização da mutilação genital feminina, é compreensivo o medo e a preocupação das feministas no Egito, em meio à primeira eleição presidencial do período pós-Mubarak, cujo primeiro turno termina nesta quinta-feira (24).
Em meio a um ambiente único para se expressarem socialmente, as mulheres do país se encontram presas no dilema entre o apoio às antigas garantias da ordem pré-revolucionária e as incertezas e esperanças do Egito pós-Mubarak.
Um 8 de Março para esquecer
Era para ser um dia memorável. Menos de um mês após a queda de Mubarak, em 11 de fevereiro de 2011, o Dia Internacional da Mulher, no 8 de março, seria a primeira vez que aquela geração comemoraria sua data nas ruas. A última manifestação pública feminista no Cairo ocorrera havia quase 100 anos, em 1919.
Era para ser um dia memorável. Menos de um mês após a queda de Mubarak, em 11 de fevereiro de 2011, o Dia Internacional da Mulher, no 8 de março, seria a primeira vez que aquela geração comemoraria sua data nas ruas. A última manifestação pública feminista no Cairo ocorrera havia quase 100 anos, em 1919.
A marcha, que aglutinava algumas centenas de pessoas, talvez atingindo mil em seu pico, continha algumas distorções. Além de uma quantidade memorável de estrangeiros, a marcha possuía mais homens que mulheres, alem de uma quantidade desproporcional de jornalistas. Caminhando pelas ruas do Cairo, sendo muitas vezes insultadas pelos homens que com ela se deparavam, não foi até o final de seu trajeto, na Praça Tahir, que a marcha se tornou uma verdadeira cena de barbárie.
Ao chegar à emblemática praça, enquanto a manifestação se esvaziava, um grupo de homens crescentemente descontentes com o desenrolar dos eventos começou a cercar e debater de forma calorosa com as mulheres. Sob os argumentos de atacar a família, desejar retirar os véus de suas mães e abandonar as crianças, os homens, que agora cercavam as mulheres, pareciam cada vez mais violentos. Quando um xeque islâmico se aproximou da discussão e declarou a manifestação um pecado, foi dada a luz verde para o ataque.
No meio da Praça Tahir, então simbolo da recém-conquistada liberdade nacional, em plena luz do dia na data marcada para comemorar as lutas sociais das mulheres, dezenas de homens atacaram fisicamente as manifestantes feministas.