Estudo pode ajudar a desenvolver tratamentos para pessoas que nasceram sem a capacidade de sentir cheiros
Nova terapia genética pode ajudar na cura da anosmia, que impede as pessoas de sentirem odores (Thinkstock)
Cientistas americanos conseguiram pela primeira vez restaurar o olfato de um camundongo com o uso de terapia genética. O tratamento pode vir a ajudar pessoas que nasceram com anosmia – a incapacidade de sentir cheiros.
Segundo os cientistas responsáveis pelo estudo que testou o tratamento, a terapia regenera estruturas celulares ciliadas, que existem no revestimento interno da traqueia e dos brônquios. Esses cílios funcionam como “antenas” que percebem o ambiente. São essenciais para o sentido olfativo.
CONHEÇA A PESQUISA
Título original: Gene therapy rescues cilia defects and restores olfactory function in a mammalian ciliopathy model
Onde foi divulgada: revista Nature Medicine
Quem fez: Jeffrey Martens, Jeremy McIntyre, Ariell Joiner, Corey Williams, Paul Jenkins, Dyke McEwen, Lian Zhang, John Escobado, Randall Reed, Erica Davis, I-Chun Tsai e Nicholas Katsanis, entre outros
Instituição: Universidade de Michigan, Universidade Duke, Universidade Paris V, Universidade de St. James e Universidade do Alabama
Dados de amostragem: camundongos com anosmia (incapacidade de sentir cheiros)
Resultado: aplicação de genes IFT88 saudáveis em camundongos que sofriam de anosmia recuperou a capacidade de olfato dos animais.
Embora o tratamento tenha como alvo as pessoas que nasceram sem olfato, os cientistas afirmam que ele também pode vir a ser útil para pessoas que perderam a capacidade de sentir cheiro por causa da idade, traumas ou acidentes.
"Nós essencialmente induzimos os neurônios que transmitem o sentido do olfato a recuperar os cílios que faltavam”, disse Jeffrey Martens, cientista da Universidade de Michigan (EUA), que participou do estudo, publicado na edição desta semana do períodico Nature Medicine.
Pouco apetite — Segundo Martens, os camundongos analisados tinham problemas que afetavam um gene chamado IFT88, o que prejudicava o crescimento e o funcionamento dos cílios em seus corpos. De acordo com os cientistas, por causa do problema, os camundongos se alimentavam pouco, já que o apetite de muitos mamíferos é motivado pelo cheiro, e tinham mortes precoces.
Os pesquisadores então inseriram genes IFT88 saudáveis em uma amostra de vírus de gripe comum e contaminaram os camundongos com ele. A infecção permitiu que o vírus espalhasse os genes saudáveis nas células dos camundongos. Os cientistas então passaram a monitorar os camundongos para verificar a recuperação dos cílios.
Segundo o estudo, após o início da terapia, os camundongos começaram a comer mais e, 14 dias depois, já tinham aumentado seu peso em 60%. Testes também mostraram que os neurônios envolvidos na percepção do cheiro reagiam quando os camundongos eram expostos a amostras de acetato de amila, um produto com forte cheiro de banana.
"Nós já sabemos muito sobre o olfato, agora precisamos aprender a consertá-lo quando ele funcionar mal", disse Martens. Os cientistas também esperam que o tratamento possa vir a ajudar vítimas de outras ciliopatias (doenças na estrutura ciliar do corpo), como doença do rim policístico e a Síndrome de Alstrom, ambas doenças provocadas por desordem no IFT88.