sábado, 13 de outubro de 2012

"Pais solteiros" de espécie de aracnídeo vivem mais


"Pais solteiros" de espécie de aracnídeo vivem mais
Opiliões que cuidam sozinhos dos ovos da espécie enfrentam dificuldades para se alimentar. Mesmo assim, vivem mais e têm vantagens na hora de acasalar



Na espécie Iporangaia pustulosa, são os os machos que costumam cuidas dos ovos (Gustavo Requena/Divulgação)

Os opiliões são aracnídeos muito parecidos com as aranhas, mas com algumas diferenças fundamentais. De pernas excepcionalmente longas, eles não possuem nenhum tipo de veneno e não são capazes de produzir teias. Além disso, têm um comportamento extremamente raro na natureza, e inexistente entra as aranhas: os machos dos opiliões costumam tomar conta dos ovos de suas crias sozinhos, sem a ajuda das fêmeas.


CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Paternal Care Decreases Foraging Activity and Body Condition, but Does Not Impose Survival Costs to Caring Males in a Neotropical Arachnid

Onde foi divulgada: revista PLOS ONE

Quem fez: Gustavo S. Requena, Bruno A. Buzatto, Eduardo G. Martins, Glauco Machado

Instituição: Instituto de Biociências, USP

Dados de amostragem: 501 opiliões machos e 349 fêmeas, encontrados no Parque Estadual Intervales, no sul do estado de São Paulo

Resultado: A pesquisa mostrou que os machos que cuidam dos ovos não conseguem se alimentar tão bem quanto os outros e apresentam pior estado físico. Mesmo assim, eles vivem mais, pois não são devorados por predadores

Por sua raridade, esse comportamento de "pai solteiro" chama a atenção de inúmeros cientistas, que procuram por sua vantagem evolutiva. Agora, um estudo publicado por um biólogo brasileiro na revista PLOS ONEmostrou que, apesar de algumas desvantagens no curto prazo, o cuidado paterno exclusivo faz com que esses machos vivam mais e levem vantagem na hora do acasalamento. A pesquisa foi realizada com a espécieIporangaia pustulosa e foi publicada pelo pesquisador Gustavo Requena como parte de seu doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

Nessa espécie, as fêmeas costumam pôr seus ovos na superfície de uma folha e ir embora – o cuidado fica a cargo dos machos. Os ovos demoram cerca de um mês para eclodir. No entanto, o opilião macho pode receber a visita de uma outra fêmea nesse período, acasalar com ela, e receber mais uma leva de ovos para cuidar. "Assim, ele pode passar até cinco meses cuidando das crias", disse Gustavo Requena ao site de VEJA.

Esse comportamento traz uma vantagem já conhecida para a sobrevivência da espécie: os pais protegem os filhos da ação de predadores. Em uma pesquisa anterior, Gustavo Requena removeu os machos de perto de seus ovos e percebeu que, em pouco tempo, eles foram completamente devorados. "Já sabíamos que a presença paterna ajudava na sobrevivência dos filhos. O que quisemos ver agora era se o comportamento trazia vantagens ou desvantagens para os pais", diz Gustavo.

Tempo de vida - Os pesquisadores seguiram as aranhas por um ano para observar como o cuidado paterno exclusivo afetou suas chances de sobrevivência. A primeira evidência: o comportamento trazia uma grande desvantagem física para esses machos, que se viam impossibilitados de procurar por comida. "Essa espécie costuma se alimentar da carcaça de outros animais. Quanto mais tempo os machos cuidavam dos ovos, menos eles comiam e iam ficando cada vez mais fracos", diz Gustavo.


Gustavo Requena/Divulgação

O fato de ter um macho para cuidar dos ovos ajuda a atrair as fêmeas para a procriação

No entanto, essa desvantagem não teve grande impacto no tempo de vida do animal. Os pesquisadores perceberam que, apesar de mais fracos, eles viviam mais do que os outros machos e as fêmeas. Isso acontecia porque os principais predadores dessa espécie de opilião são aranhas, que não precisam caçar suas presas, mas podem simplesmente esperar até que elas caiam em sua teia. Consequentemente, os machos que permanecem meses parados cuidando de seus filhos acabam vivendo mais.

Segundo o pesquisador, outra grande vantagem que esses machos tinham era na hora do acasalamento. Como estava disposto a cuidar dos filhos por um longo período, o pai solteiro era considerado uma espécie de bom-partido pelas fêmeas em busca de parceiros. "Um macho com esse comportamento mostra para a fêmea que está disposto a proteger seus ovos", afirma Gustavo Requena. O pesquisador conclui que, ao combinar uma maior taxa de sobrevivência e de acasalamento, a adoção esse comportamento passa a ser vantajoso para os opiliões.