Em momento de revival do cineasta, chega ao Brasil o filme ‘Hitchcock’, inspirado em livro sobre ‘Psicose’ que mostra como o mestre do suspense fez as pazes com o público ao abraçar o gênero do terror e como a sua habilidade técnica fez escola para os diretores que vieram depois
O cineasta Alfred Hitchcock (AP)
Sem nenhuma grande efeméride além dos cinquenta anos de Os Pássaros, um de seus filmes mais famosos embora não o preferido de boa parte dos cinéfilos, Alfred Hitchcock é o principal nome em cartaz na sessão de revival do cinema este ano. Em especial no Brasil, onde estreia nesta sexta-feira Hitchcock, longa baseado no livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose(tradução de Rogério Durst, Intrínseca, 256 páginas, 29,90 reais), que também acabou de chegar às livrarias nacionais, com 23 anos de atraso em relação ao lançamento nos Estados Unidos.
Divulgação
O jornalista Stephen Rebello
No livro, o jornalista e roteirista Stephen Rebello, admirador e seguidor de Hitchcock desde a infância, conta como foi a produção de Psicose (1960), desde a compra dos direitos do sombrio romance de Robert Bloch, baseado na história real do assassino Ed Gein, até o declínio da carreira do diretor britânico, nos anos posteriores, quando de todo modo ele deixou a sua marca, o seu estilo. A história de Gein chamou a atenção do cineasta, que viu no projeto a chance de se reinventar. Para isso, porém, ele teve de investir o próprio dinheiro, já que a história do amalucado assassino de Psicose pareceu arriscada demais para o seu estúdio, a Paramount. Para os executivos, “Hitchcock ePsicose não pareciam uma boa combinação”, diz Rebello no livro. O orçamento final ficou em pouco mais de 800.000 dólares, baixo se comparado com os filmes de 2,5 milhões que Hitchcock já havia feito. “Ele teve de gravar com tempo contado”, conta o autor ao site de VEJA.
No longa surgido da obra de Rebello, é Anthony Hopkins quem dá vida ao diretor que reinventou o gênero do terror a partir de Psicose. Para o jornalista, que foi o último a entrevistar o cineasta, em 1980, o papel de Hitchcock na reconstrução do gênero é semelhante ao trabalho do francês Paul Cézanne na pintura. “O estilo de Hitchcock se destaca daqueles que abordam os mesmos temas que ele. Qualquer um consegue pintar uma cesta de frutas, por exemplo. Mas, nas mãos de um Cézanne, um chamado tema “mundano” pode inspirar algo transcendente.”
Outro lançamento que faz de Hitchcock o tema do momento é o telefilme The Girl, da HBO, que retrata o diretor Hitchcock como um homem obsessivo e rancoroso com Tippi Hedren, a atriz principal de Os Pássaros (1963). Quando Grace Kelly, então casada com o Príncipe Rainier III de Mônaco, desistiu de protagonizar o filme, Hitchcock decidiu fazer de Tippi a sua nova estrela. Inexperiente no cinema, e apenas conhecida pela carreira como modelo, a moça teria diante de si a oportunidade da vida, não fosse pelos abusos e jogos psicológicos do diretor, de quem diz ter se tornado vítima. Em entrevistas, entre outras coisas, a mãe de Melanie Griffith afirmou que os pássaros usados para as gravações do longa eram verdadeiros, assim como os machucados em seu corpo decorrentes dos ataques dos animais.
Confira a entrevista de Stephen Rebello ao site de VEJA.
Alfred Hitchcock teve que financiar Psicose (1960) do próprio bolso, o que o impediu de contratar grandes atores e os profissionais de produção com que estava acostumado a trabalhar. Por que tanto empenho em fazer o filme? No livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose, eu explico que Hitchcock temia se repetir e ser visto como um diretor de poucas ideias. Seu longa anterior, Intriga Internacional, foi um sucesso em 1959, mas ele sentia que não progredia como diretor. Hitchcock tinha 59 anos e fazia filmes desde o final dos anos 1920. Ele era como um produto, uma marca, e público e crítica julgavam saber o que esperar dele, coisa que ele não desejava. Diretores do mundo inteiro o imitavam e alguns diziam que o superavam. Mesmo programas de TV americanos copiavam as histórias do Alfred Hitchcock Presents, seu programa semanal de suspense, apresentado e às vezes dirigido por ele. Adaptar o romance Psicose, de Robert Bloch, era uma forma de se reinventar. Diferentemente dos filmes elegantes e glamorosos feitos do meio para o final dos anos 1950, o universo de Psicose é sujo, puído, desesperador. O filme foi tão imitado nos últimos 50 anos que as pessoas esqueceram o quão arriscado foi para o diretor eleger um romance em que figuravam travestismo, incesto, esquizofrenia, necrofilia, sexo e violência. Robert Bloch apresenta uma heroína que morre no começo da história e um assassino que parece alguém que você pode encontrar no dia a dia. Esse tipo de coisa foi estimulante para Hitchcock. Ele queria apostar em algo forte, assustador de uma maneira original e barato. Ele arriscou sua reputação.
O roteirista Joseph Stefano afirmou em entrevista que o fato de Psicose ser diferente dos outros filomes de Hitchcock lhe deu mais liberdade na criação e caracterização dos personagens. Hitchcock não era roteirista e não sabia como fazer uma história funcionar ou como compor motivações plausíveis para os personagens, então inteligentemente deixava essa tarefa para os roteiristas. Seus colaboradores ocasionalmente ganhavam o reconhecimento e o crédito que mereciam. A afeição de Hitchcock pelo jovem, talentoso e inexperiente Stefano, depois de tentar outros roteiristas e não gostar do resultado, foi crescente. Após discutir todos os aspectos do filme com o diretor, Stefano recebeu sinal verde para fazer o trabalho. E ampliou a história de Robert Bloch. No livro, o escritor apresenta os personagens e a maior parte da história, que o roteirista aprofundou e enriqueceu com diálogos e detalhes dos personagens. Stefano humanizou a história.
A cena do assassinato no chuveiro é referenciada até hoje. Na época, Hitchcock tinha consciência de que seria uma das cenas mais importantes de sua carreira? Os envolvidos na cena sabiam que ela chocaria e surpreenderia o público, já que nunca se espera que a estrela do filme seja brutalmente assassinada no começo da história. E todos sabiam também que Hitchcock estava disposto a testar limites. Mas, na verdade, foi a cena do assassinato do detetive nas escadas que teve mais desafio técnico e planejamento, porque se imaginava que seria o destaque do filme. Nada estava claro enquanto Psicose era feito. As pessoas raramente sabem que estão fazendo história quando, na verdade, estão. Enquanto fazia Psicose, Hitchcock já tinha outro projeto na cabeça, Marnie, Confissões de uma Ladra, com Grace Kelly à frente, mas, como sabemos, as coisas tomaram outro rumo.