Situação da Síria é ‘desesperadora’, diz presidente de comissão da ONU.
Brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro coordenou inquérito sobre repressão.
Em entrevista ao G1, ele diz que número de mortos deve passar de 4.000.
A estimativa oficial de que 3.500 pessoas foram mortas pelas forças de repressão do governo da Síria não é suficiente para demonstrar a realidade dramática vivida pelo povo do país, segundo o presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU para o país, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.
O número oficial de vítimas, que faz parte do relatório da comissão, é o total de pessoas mortas que a investigação conseguiu checar caso a caso. O número real, entretanto “deve ser maior, por volta de 4 mil mortos”, disse Pinheiro.“A situação é bastante desesperadora. O relatório mostra o que está por traz das imagens que aparecem todos os dias de repressão a manifestações, mortes, pessoas feridas, pessoas presas”, disse Pinheiro. “O relatório mostra o dia a dia a que a população esta submetida, com cidades sob cerco militar, ocupadas por tanques. A ONU calcula que 3 milhões de pessoas foram perturbadas em sua vida, tendo que se mudar, deixar suas casa. Isso sem contar as violações de direitos humanos que testemunhamos - prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos, tomada de reféns.”
O relatório da comissão não chega a concluir sobre a possibilidade de existência de uma guerra civil no país, entretanto. “Tem havido enfrentamentos do chamado exército livre da síria, formado por desertores, contra forças de segurança, mas nós não concluímos por guerra civil. Não tivemos como verificar isso. Certamente tem havido confrontos armados em vários lugares do país.”
Crimes contra a humanidade
Segundo o relatório divulgado oficialmente na segunda-feira (28), os militares e as forças de segurança da Síria cometeram crimes contra a humanidade durante a repressão das manifestações contra o regime. As forças do regime mataram, estupraram e torturam manifestantes desde que começaram os protestos, em março passado, de acordo com as provas reunidas pela comissão.
A conclusão da comissão é de que a responsabilidade é do governo da Síria. “O relatório conclui que todas essas práticas sistemáticas não poderiam ter ocorrido sem instruções e tolerância por parte das autoridades da Síria. Acreditamos que a Síria tem responsabilidade e deve investigar e punir e os responsáveis”, disse Pinheiro.
O painel entrevistou 223 vítimas e testemunhas, entre as quais desertores das forças de segurança que receberam ordens de disparar para matar os manifestantes, e assinalaram casos de crianças que foram torturadas até a morte. Segundo Pinheiro, o governo sírio não colaborou em nada com a investigação. “Todas as informações foram obtidas de cidadãos sírios em vários países do mundo e através de entrevista por Skype com interlocutores. O governo não colaborou em nada conosco.”
Reação global
O Conselho de Segurança da ONU ficou perto de tomar uma ação contra a Síria, mas China e Rússia vetaram uma resolução em outubro. No fim de semana, a Liga Árabe, que reúne 22 países, aprovou suas sanções mais duras em mais de três décadas contra um Estado membro, isolando ainda mais o regime de Bashar al Assad por causa da violência contra os manifestantes.
Pinheiro disse não caber a ele definir os rumos que vão ser tomados pela ONU a partir das informações da comissão. Segundo ele, é provável que seja realizada uma sessão especial na ONU sobre a sitauação do país, e ele pode ir apresentar o relatório pessoalmente. “Não examinamos cenários. Nos foi pedida uma fotografia completa e honesta do que está acontecendo no dia-a-dia na sociedade síria”, disse.
Segundo ele, o trabalho da comissão foi muito focado na realidade Síria, e não seria possível fazer um paralelo entre o que acontece no país e as remais revoltas árabes. Segundo ele, mesmo com a divulgação do trabalho, a comissão vai continuar aprofundado suas investigações.
“O relatório é só uma pequena amostra do que recolhemos. Vamos aguardar a situação do país para definir os rumos da investigação”, disse. Segundo ele, em março será apresentado um novo relatório sobre a situação síria.
