segunda-feira, 30 de julho de 2012

Um trem para Manchester







O trem anterior havia partido dez minutos antes. Lotado. O que saiu pontualmente às 8h20 também da estação Euston, na região norte de Londres, neste domingo frio do verão britânico, estava ainda mais cheio. Todos os lugares ocupados. E com passageiros em pé ou sentados nos corredores. “Pedimos desculpas a todos”, repetiam pelos alto-falantes a cada parada. “Quem se sentir incomodado ou sofrer de claustrofobia poderá descer na próxima estação e aguardar na plataforma a composição seguinte, que provavelmente estará mais vazia.”

Mas as pessoas não desciam. Queriam mesmo que passassem logo as pouco mais de duas horas e meia de viagem para desembarcar em Manchester. Tudo por causa do velho futebol inventado na Inglaterra que teima, apesar da eterna má vontade do Comitê Olímpico Internacional, em ser há mais de 100 anos uma das maiores atrações de público – se não a maior – nos Jogos criados pelos gregos e ressuscitados pelos franceses.

Havia um séquito de brasileiros, formado pelos que estudam ou trabalham na Inglaterra, moradores de outros países europeus e turistas que travessaram o Atlântico para acompanhar a Olimpíada . Jovens, casais, mulheres em grupo e aqueles inevitáveis barrigudos, de bigode, boné amarelo, bermuda e corneta. Uns gatos pingados da Bielorússia, país que a imensa maioria não seria capaz de localizar no mapa e cuja seleção enfrentaria a nossa. E muitos, muitos fãs do mais popular dos esportes que queriam simplesmente presenciar ao vivo a segunda exibição da seleção pentacampeã mundial em sua campanha pela jamais alcançada medalha de ouro.

Poucos lugares seriam mais adequados para isso. O Old Trafford, local da partida, não é apenas um majestoso estádio. É um santuário da bola. Dono da casa, o Manchester United tornou-se um dos mais ricos, organizados e bem sucedidos clubes do planeta. A coleção de suas láureas é de tirar o fôlego. Só para citar algumas: já foi dezenove vezes campeão inglês, onze vezes campeão da Copa da Inglaterra, três vezes campeão europeu, duas vezes campeão mundial.

Quem ama o futebol fica arrepiado ao cruzar seus portões. Quem são os três heróis imortalizados lado a lado na escultura intitulada The United Trinity? A santíssima trindade George Best, Dennis Law e Bobby Charlon. E aquela outra figura imponente, de terno e gravata, no lado oposto? Sir Matt Busby, que treinou o time de 1945 a 1969. Ele é igualmente o nome de uma rua ao lado. E quem aparece em uma placa enorme em cima das arquibancadas que foram batizadas em sua homenagem? Sir Alex Ferguson, técnico da equipe desde 1986. Sim, um ficou no cargo por 24 anos. O outro está há 26. Por aí se vai entendendo uma das razões do poderio dos Diabos Vermelhos, como são conhecidos.

Para ir de um lado a outro do estádio é preciso atravessar o longo Túnel Munique. Trata-se de um comovente memorial da tragédia ocorrida em 6 de fevereiro de 1958, quando a delegação do Manchester United, ao voltar de Belgrado, capital da extinta Iugoslávia, fez uma escala na cidade alemã, onde aconteceria o triste acidente com o avião que a transportava. Fotos, documentos, reproduções de jornais da época e inscrições lembram que morreram 22 pessoas, entre os quais oito jogadores e sete outros membros da equipe. Sobreviveram 21 passageiros, incluindo Bobby Charlton, que jogaria 909 partidas com a camisa rubra e ganharia a Copa do Mundo de 1966, e o treinador Matt Busby, que chegou a receber a extrema-unção.

Perto de tais legendas, tratamento com o qual são sempre reverenciados, Beckham, Cantona, Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand, que defenderam o clube, entre inúmeros craques famosos, tornam-se coadjuvantes de sua história gloriosa. Um de seus atuais jogadores é o jovem Rafael, lateral-direito da seleção brasileira.

Depois de Cardiff, cidade do rúgbi, com seu gramado que se desfazia em tufos, o cenário foi perfeito para a segunda vitória canarinha na Olimpíada e para que Neymar, passado um bom tempo, voltasse a ser protagonista de um encontro importante. Fez um belíssimo gol ao cobrar maravilhosamente uma falta, antes havia cruzado na medida para Alexandre Pato marcar e depois daria um passe fulminante de calcanhar que permitiu a Oscar liquidar o jogo com um chutaço. Sir Matt Busby aplaudiria.

“Viu o menino? Com calma, ele vai acertando”, comentou comigo o técnico Mano Menezes ao deixar a sala de entrevistas e passar perto de todas aquelas estátuas dos deuses vermelhos no caminho no ônibus. O público já se dispersara. Era uma plateia do tamanho que hoje em dia raramente se vê nas nossas arenas. “Hoje vocês são 66 212 espectadores”, anunciou a locutora em francês, com indisfarçável orgulho na voz, informação repetida a seguir em inglês. (Rituais olímpicos: primeiro na língua de Proust, depois no idioma de Shakespeare.)

E olha que até não era tanta gente assim. Com seus 150 000 sócios que ficam até quatro anos na fila para comprar o season ticket, ingresso válido para a temporada inteira, o clube costuma ter uma média de 75 000 pagantes nos jogos que realiza no Old Trafford.

É por tudo isso que os trens partem tão lotados para Manchester.