Festival do Rio exibe 10 produções de Portugal. Delegação do país conta como os problemas da zona do euro afetam a produção cultural.
Delegação portuguesa expressou preocupação com futuro do cinema de seu país no Festival do Rio(AnnaVodo/Divulgação)
Portugal vive um momento paradoxal no que diz respeito à produção cinematográfica: ao mesmo tempo em que o ano é considerado fraco de criações – que sentem o reflexo da crise econômica da zona do euro –, 2012 apresenta uma série de obras premiadas em festivais internacionais e aplaudidas pela crítica mundial. "Este é o ano zero, em que rigorosamente nada se passou em termos de cinema. Ou seja, zero de apoio à produção, a editais, a festivais e cineclubes. E, extraordinariamente contraditório, acaba por ser um dos anos mais brilhantes da safra do cinema", diz Luís Urbano, produtor de Tabu, que integra a delegação portuguesa no Festival do Rio 2012, homenageada pelo Ano de Portugal no Brasil.
Para Urbano, a falta de incentivos é preocupante e ameaça até a sobrevivência da sétima arte em seu país. "É uma situação de grande fragilidade. Para os técnicos e artistas do cinema português, 2012 foi um ano sem trabalho. Não existe uma indústria do cinema em Portugal, é ficção dizer isso. O que existe é um cinema que se faz em condições muito particulares, que permitiu extravasar as fronteiras do país que tem muita criatividade", desabafou ele, em uma roda de conversa com jornalistas e colegas produtores e diretores no Armazém da Utopia nesta quarta-feira. Todos os investimentos culturais têm sido afetados, especialmente depois da extinção do Ministério da Cultura que, é bem verdade, já não fazia muito, conta o produtor.
Enquanto o Festival do Rio 2012 oferece um cardápio atraente do cinema português – são mais de 10 produções, entre curtas e longas, além de uma mostra especial do jovem talento João Pedro Rodrigues –, não há programação prevista pelo menos para os próximos dois anos. "Os filmes rodados em 2012 vêm de produções anteriores. Hoje, temos um vazio que vai estar sem qualquer tipo de preenchimento em 2013 e 2014", lamenta Urbano. A esperança eram os editais do governo, com júris e concursos públicos, mas eles devem ser extintos, conta Alexandre Oliveira, produtor de Filme do Desassossego, inspirado no Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. "Estamos mesmo de mãos atadas, não podemos fazer nada."
Alternativas - Filme do Desassossego estreou em Portugal há três anos e, como não conseguiu se inserir no circuito comercial das salas de cinema, a alternativa foi partir para uma aventura de revitalização dos cineteatros. "Compramos um projetor e andamos com o cinema nas costas para percorrer todo o país. O filme marcou a recuperação de um certo glamour e da ideia de que as pessoas voltem aos teatros", contou Oliveira, que diz fazer parte de um grupo "pequeno e restrito" que defende o cinema no país. "Assumimos que é nossa responsabilidade defender as artes. Várias pessoas que trabalhavam na área da cultura foram empurradas para o desemprego. Não queremos parar nem desistir de defender a nossa cultura."
Diante da falta de apoio geral, é para as co-produções que todos se voltam - como Yvone Kane, feito em parceria com o Brasil. Da diretora portuguesa Margarida Cardoso, o filme tem a equipe técnica toda formada por brasileiros além da participação de Irene Ravache no elenco. As gravações ocorreram entre dezembro de 2011 e janeiro deste ano, em Moçambique, e o lançamento está previsto para maio do próximo ano, em Portugal. O Ornitólogo é outro exemplo. O quarto longa de João Pedro Rodrigues começa a ser filmado em 2013 e deve estrear no Festival de Cannes de 2014. Os produtores querem que o Brasil entre com a pós-produção e distribuição, e já pensam em inclui-lo na programação do Festival do Rio 2014.